Heróis Invisíveis – Voluntários Avante!

“O pão alimenta o corpo, na medida em que se divide o pão ele fica menor, porém o conhecimento alimenta a alma e à medida que o divide você o multiplica”

Autor Desconhecido

 

Os cinemas do mundo inteiro lotam suas seções com os grandes clássicos das revistinhas em quadrinhos. Muitos dos espectadores revigoram-se ao lembrarem dos sonhos e fantasias da infância quando veem os seus Super-Heróis na telinha arrasarem com o mal. Esse comportamento me fez pensar no “porque” desse sentimento e a melhor resposta para essa pergunta foi dada por Joseph Campbell em seu livro “O Herói de Mil Faces”. Campbell (1989) registra que todos nós temos propensão a sermos heróis e que essa ideia é tão velha quanto a humanidade, já que trata de simbolismos antigos que representam, como defendeu Carl Gustav Jung, arquétipos.

Campbell (1989, p. 13) disse que “o herói, por conseguinte, é o homem ou mulher que conseguiu vencer suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas. As visões, ideias e inspirações dessas pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do pensamento humanos. Eis por que falam com eloquência, não da sociedade e da psique atuais, em estado de desintegração, mas da fonte inesgotável por intermédio da qual a sociedade renasce. O herói morreu como homem moderno; mas, como homem eterno aperfeiçoado, não específico e universal, renasceu. Sua segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte, retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu.”

Em outras palavras, o herói é aquele que surge para nos tirar das trevas da escuridão e nos oferecer a redenção, a misericórdia, a luz e a verdadeira liberdade; esse é o motivo pelo qual todos nós nos empolgamos com os heróis das telinhas, pois eles simbolizam as virtudes que faltam em nós mesmos para alcançarmos o, tão desejado, próximo nível.

O que me espanta, mesmo diante desse entendimento sobre os heróis, é o fato de não enxergar na sociedade a mesma postura de admiração dos heróis das telinhas para com os heróis da vida real. Será por que os heróis da vida real não conseguem mudar o mundo tão rapidamente como os heróis da telinha ou será por que não fazem os “problemas” desaparecerem com um simples “passe de mágica”?

Vivemos em um mundo que está se reinventando a cada dia: mudamos da era “primitiva”, na visão dos nossos filhos, para o mundo globalizado, altamente tecnológico, em poucas décadas. Temos o privilégio de vivenciar essa transição e de sermos a primeira geração na história da humanidade a experienciar uma mudança de Era… isso mesmo, estamos diante de uma mudança de Era.

As mudanças são tantas que é humanamente impossível acompanhá-las e isso nos impõe um dever inquestionável para com as futuras gerações: o dever de valorizar e preservar o passado, seu simbolismo e sua tradição. Devemos ter a responsabilidade de, na busca pela evolução e progresso, agradecer o legado histórico que herdamos e que permitiu a nossa evolução; precisamos no atual momento, além de preservar o que restou, resgatar e reciclar valores, hábitos e ideias do passado que tornavam o mundo daquela época mais virtuoso e capaz de preencher e enobrecer a alma dos nossos ancestrais… é o Campbell quis dizer sobre a ação do herói para o renascimento e não para dar atenção a desintegração atual.

Renascimento é convite que Cristo nos faz diariamente há mais de dois mil anos. Renascimento pode ser definido como a ação de você retornar à valores e simbolismos antigos para reciclá-los e adaptá-los ao novo e atual contexto histórico.

Viktor Frankl (1991) nos deixou como legado o entendimento de que o rompimento com a tradição é gerador do vazio existencial que aflige e traz sofrimento a tantas pessoas nos dias atuais. Desse modo, Frankl defendia, através da logoterapia, o renascimento do indivíduo através da sua conexão com a tradição, fazendo com que passado e presente caminhem juntos para a construção do futuro. Sendo assim, é imperativo que busquemos a Inteligência Artificial, mas é determinante que seja construído, novamente, uma identidade nacional baseada nos desafios, derrotas e vitórias do passado, de modo que a tecnologia venha para somar e nos unir, ao invés de nos separar e nos oprimir. É preciso voltarmos a nos olhar como irmãos, seja no sentido espiritual, seja no sentido patriótico.

Qual história e legado vamos deixar para nossos netos? Qual o nosso papel como indivíduos e protagonistas nessa fase de desintegração social vivida nos dias atuais? Tal desintegração gera dor e nos força a agir diante de tais problemas. Esse estímulo que nos deixa inquietos e dispostos a exercermos o sacrifício pessoal em prol de ajudarmos o próximo é  o que Campbel defino como “o chamado do herói”. Saiba que nesse exato momento, você está sendo convocado para a sua jornada… você está sendo convocado para se tornar um herói!

Na vida real, os heróis são iguais a nós, mas são chamados, merecidamente, de Voluntários. De acordo com a ONU, “voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social, ou outros campos.” São heróis que agem nos cantos da sociedade (creches, escolas, igrejas, paróquias ou projetos sociais), muitas vezes sem serem vistos, sem serem notados, buscando não apenas tornar o mundo melhor, mas tornar as pessoas melhores para si mesmas e para o mundo, contribuindo para livrar o mundo de todo tipo de todo tipo de tirania, opressão dor ou injustiças.

São pessoas que sabem que não conseguem mudar o mundo inteiro, mas têm a consciência de que são capazes de ajudar a transformar o mundo de alguém… agem por caridade e puro amor ao próximo. Nos últimos anos o termo caridade foi bastante atacado, mas é a palavra que melhor descreve a ação de amor, ajuda e auxílio ao próximo, talvez, por isso, seja o principal caminho para a salvação e redenção do homem que crer na existência de Deus.

Muito se fala hoje em dia sobre empatia, mas essa virtude só tem sentido se, a partir dela, vier a ação em prol de ajudar o próximo e essa ação é a caridade. Empatia sem caridade não gera resultados e a caridade é a ação nobre e elevada que desempenhamos após a empatia… é a diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho… é a diferença entre dizer que se importa e se importar de verdade. Precisamos de mais empatia? Sim! Mas o que vejo, nos dias atuais, é que precisamos de mais CARIDADE! E é nesse ponto que vejo o renascimento… resgatar uma virtude que herdamos há mais de dois mil anos para reverter esse quadro de desintegração social que vivemos.

Como os heróis da telinha, os Voluntários usam o seu livre-arbítrio administrar seu tempo para conciliar a vida profissional, pessoal, social e espiritual. São reconhecidos por essa atitude em processos de recrutamento e seleção de grandes empresas, pois denotam espírito de servir, principal atributo dos líderes, e um conjunto elevado de virtudes. As consequências de exercerem a caridade e a cidadania é muito positiva: os voluntários possuem mais amigos, um networking mais engajado, são mais sociáveis, possuem uma fantástica capacidade de servir e, em virtude disso, se tornam nos melhores líderes e liderados que conhecemos. Desenvolvem-se desenvolvendo os outros e acima de tudo, são mais felizes e satisfeitos com suas realizações.

Jorge Gerdau Johannpeter em um dos seus artigos comenta um dilema que ele foi incapaz de decifrar, “os países ricos, desenvolvem voluntariado por que são ricos ou são ricos por que desenvolvem o voluntariado?”. Dilema esse que nos inspira contribuir voluntariamente com a sociedade e com o próximo, para ver se seremos capazes de encontrar a grandeza dessa resposta, se é que existe.

Nos últimos anos, trabalhando com voluntariado, conheci diversos voluntários, cada um com uma busca diferente no exercício do seu ofício, mas apesar das diferenças, todos eles tinham algo em comum. Os Voluntários são heróis invisíveis, pois não são vistos com frequência na mídia e fazem seus trabalhos seguindo o princípio de “que a tua mão esquerda não saiba o que fez a mão direita” (São Mateus, 6:3), agindo em prol dos outros sem buscar ser reconhecido por isso. Fazem o bem pela busca consciente de obter satisfação pessoal através da contribuição que gera para o próximo e para a construção de uma sociedade melhor.

É nosso dever como cidadãos buscar, conscientemente, a formação de uma sociedade pautada em virtudes, sem esperar nada em troca, para sermos merecedores do título de herói, pois como disse o filósofo Aristóteles “a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las”. Torne-se voluntário, contribua para desenvolver pessoas de modo que estas tornem-se mais livres, mais autônomas, mais dependentes e seja, desse modo, um herói para elas e para a sociedade. Você está convocado a fazer parte desse time! Voluntários, avante!

 

Cavaleiro Templário

REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. 102ªed. São Paulo: Ave Maria, 1996.

CAMPBEL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Pensamento, 1989.

FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. São Paulo: Vozes, 1991.

NAÇÕES UNIDAS. O trabalho voluntário e a ONU. [S.I.]. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/vagas/voluntariado/>. Acesso em: 05 mai. 2019.

Cavaçeiro Templário

 

Gervazio Lopes

Gervazio Lopes

Escolheu Administração como profissão e Empreendedorismo como carreira. É um Caçador de Oportunidades, crossnetwork, empreendedor, palestrante, professor e voluntário. Se define como um conservador, católico, defensor da tradição e da liberdade e estimulador do protagonismo individual para fortalecimento das famílias, desenvolvimento de indivíduos e de sociedades.

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